30.1.08

Homenagem ao Carnaval que eu conheci

HOMENAGEM AO MEU PAI
EM ÉPOCA DE CARNAVAL

O texto que se segue foi escrito a 20 de Fevereiro de 2007




Hoje foi dia de Entrudo... por isso não fui trabalhar.
Ao fim do dia acendi velas e escrevo.


Lembro os bons tempos em que o Carnaval era celebrado em minha casa durante uma semana, 24 horas por dia. São, de facto, lembranças únicas. Se fechar os olhos, consigo ver-me a mim, aos meus pais e mais uma quantidade de amigos velhos e antigos a dançar sem parar;


consigo ver os caixotes de papelão a descerem de meu sótão e os saco de plástico cheios de roupas, chapéus, cabeleiras, máscaras, sapatos, pinturas, lenços, gravatas, saias, calças, camisas e casacos de todos os tamanhos, cores e feitios;


consigo ver a minha casa cheia de gente alegre a escolher o que vestiriam a cada noite;
consigo até ouvir a campainha da porta da sala tocar e as músicas que se dançavam há muitos anos atrás.


A alegria e o companheirismo e as partidas de Carnaval eram, durante uma semana seguida, o nosso dia-a-dia.


Lembro-me doa bailes alegres a dançar sem parar;
De ir ao Bar comprar pastilhas ou garrafas de água ou Sumol e batatas fritas, muitas batatas fritas!!! E Sugus, muitos Sugus!!!!!!!!!
De enfiar a mão cheia de papelinhos na boca de quem estava distraído;
De guardar sempre um punhado de papelinhos para quando viesse embora atirar, em jeito de despedida;
Lembro-me de não conseguir atirar bem as serpentinas e querer que elas atravessassem a sala toda...
E de entrarmos na sala uns de cada vez... e de aguentarmos o baile todo com a cara tapada com alguns a tentarem adivinhar quem éramos.
Lembro-me do Opel Corsa ir "à pinha" de gente, uns em cima dos outros... e de fazer várias viagens para ir buscar toda a gente...

E de o meu PAI só entrar no segundo grupo para baralhar.
E lembro-me de ele ter que mostrar a cara ou identificar-se ao porteiro para pagar menos porque era sócio das sociedades.


Como posso esquecer?
Não posso!
Não quero esquecer!


Hoje o Carnaval não me preenche um dia, nem uma semana, não entra nem sai pela minha porta, não desce do meu sótão, não sabe a batatas fritas nem a sugus, não soa a "Mamã eu quero" nem a "Se você pensa que cachaça é água", nem àquela da "Aurora"...


" Se você fosse sincera... ó-ó-ó-ó Aurora, veja só que bom que era... ó-ó-ó-ó Aurora"


ou então


"Se alguém te convidar pra tomar banho em alguidar,
Pra piquinique na Barra da Tijuca...
Minina vai, com jeito vai,
Senão um dia a casa cai!"


E tantas outras músicas brasileiras.


"Olha a cabeleira do Zézé,
será que ele é?
será que ele é?"


Eu tive a felicidade de brincar ao Carnaval com os maiores e melhores foliões que conheci. Tive a felicidade de ser fruto deles e de ser feliz com eles. E, hoje, apesar de ainda gostar do Carnaval, não há folia que se compare, nem alegria, nem... nem nada.









O que eu não dava para ter um dia de Carnaval a sério, à antiga!
Mais uma vez sinto, mas sinto mesmo, que se o meu PAI aqui estivesse tudo seria diferente... E eu não estaria aqui a escrever memórias*



2 comentários:

Nuno Saraiva disse...

Estou certo que não vi nem 1% do que era por vós vivido, mas lembro-me muito bem do casal mais animado do baile e dos concursos de máscaras.

O assunto é tão pessoal que não tenho mais palavras. Mas não quis deixar de aqui partilhar essa memória.

Sereia* disse...

Obrigada pelo comentário Nuno.
E pela partilha da memória.