1.1.08

Vergílio Ferreira


67.

Sol vivo e o vento que arrasta consigo o rumor do mar. Cheguei agora do não ser, e vi, e ouvi. Contemplo o mistério das margens da vida e ele existe à minha face, oculto e deslumbrante.
As coisas existem no fulgor da luz, agitam-se um pouco na agitação do ar. Estou de fora, não sabem que eu as olho e escuto. O mistério abre-se diante dos meus olhos e um momento assisto à revelação do ser. Não contavam comigo e cumpriam-se por si na obscuridade de existirem. Não têm porquê nem para quê no absoluto com que são. Mas eu vi e ouvi. A luz, o som. E imediatamente teci sobre eles uma rede que os aprisionasse no meu sabê-los e eles, existissem na criação do meu entendimento.
É uma rede que os envolve de todo o lado como um voo. Mas eles trespassam-na sem entenderem que eu os entenda. A minha única atitude sensata é a da humildade. Ficar à margem e olhar. Assistir ao milagre estúpido e ser estúpido com ele, sem uma palavra que o diga.
E como Deus que agora sou, achar apenas que tudo é bom.



Vergílio Ferreira, in Pensar

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