12.3.09

Hoje, apeteceu-me o Mar de Sophia :)

Quando eu morrer
voltarei para buscar os instantes
que não vivi junto do mar.

Como ondas do mar dançam em mim os pés do teu regresso.

Há muito que deixei aquela praia
De grandes areais e grandes vagas
Mas sou eu quem na brisa respira
E é por mim que espera cintilando a maré vasa.

No mar passa de onda em onda repetido
O meu nome fantástico e secreto
Que só os anjos do vento reconhecem
Quando os encontro e perco de repente

O mar azul e branco e as luzidias
Pedras – O arfado espaço
Onde o que está lavado se relava
Para o rito do espanto e do começo
Onde sou a mim mesma devolvida
Em sal espuma e concha regressada
À praia inicial da minha vida.

De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.

Casa branca em frente ao mar enorme,
Com o teu jardim de areia e flores marinhas
E o teu silêncio intacto em quem dorme
O milagre das coisas que eram minhas.

Não há fantasmas nem almas,
E o mar imenso, solitário e antigo,
Parece bater palmas.

Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.

Reino de medusas e água lisa
Reino de silêncio luz e pedra
Habitação das formas espantosas
Coluna de sal e círculo de luz
Medida da Balança misteriosa

Vem do mar azul o marinheiro
Vem tranquilo ritmado inteiro
Perfeito como um deus,
Alheio às ruas.

O sol rente ao mar te acordará no intenso azul
Subirás devagar como os ressuscitados
Terás recuperado o teu selo, a tua sabedoria inicial
Emergirás confirmada e reunida
Espantada e jovem com as estátuas arcaicas
Com os gestos enrolados ainda nas dobras do teu manto



Sophia de Mello Breyner Andresen

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É inspirador este poema de Sophia.
Hoje regressei a ele, como tantas outras vezes regresso aos poemas de que gosto.

1 comentário:

Paula Raposo disse...

A Sophia é sempre um óptimo regresso!!