2.4.09

Lenda encantada, inventada agora mesmo...

A ouvir esta música...



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Num lugar secreto, nem escuro, nem claro, nem muito acima da montanha mais verde e mais alta, nem muito abaixo do coral mais colorido, está guardado o momento, está escondido o segredo, num 'para sempre' que nunca começa, nem nunca acaba...
está um búzio e está uma Sereia*

Ela espera pelo dia em que, ao nascer ou ao pôr do sol, à hora certa que o Universo decidir, o segredo guardado no búzio vai ser revelado.

O feitiço que Neptuno lhe lançou era bonito só de ouvir. Se fecharmos os olhos, podemos ver as cores desse feitiço dentro do nosso coração podemos ouvir o som desse feitiço, quando foi pronunciado para dentro de um búzio encantado. Os acordes do som do Mar embalaram as palavras secretas numa língua que não existe em mais lugar nenhum do mundo.
As palavras não foram inventadas, foram escolhidas uma por uma, assim ao acaso de quem sabe o que quer dizer. E soaram a feitiço imaterial quando entraram pela boca do búzio mais lindo e mais côncavo, mais sonoro e mais brilhante, que foi encontrado no fundo do mar.

Ora, todos os peixes de todos os Oceanos souberam que havia um búzio especial que tinha o segredo, mas não sabiam qual era. As espécies mais antigas de peixes nadaram pelos mares mais revoltos, passaram em cardumes de mais peixes que estrelas no céu, pelas correntes de nortada que vinham de outros nortes. Passaram a palavra às medusas e estas passaram às vieiras. As vieiras contaram tudo aos grandes mamíferos. E do Pólo Norte ao Pólo Sul, todas as focas e leões marinhos, todos os corais de recifes, todas as espécies de tartarugas, as rochas que fazem o perfil de todas as praias do Universo, as ondas que rebentam nas areias mais finas e nas pedras mais duras... E até o vento que sopra na crista das ondas, soou nos quatro cantos do mundo...

Mas nada, nem ninguém sabia onde estava nem como era esse búzio. Nada nem ninguém sabia onde estava nem como era essa Sereia*. Era segredo bem guardado.

A Sereia* tinha ouvido o feitiço que lhe foi lançado, mas ficou proibida de o revelar. Dizia-se que o Mar podia secar, dizia-se que o Sol nunca mais ia nascer, nem pôr, no horizonte. Então, ela esperou pelo dia em que tudo podia acontecer e o feitiço podia quebrar.

Por entre os sons de marulhar, Neptuno lançou o seu ceptro e fez dizer ao Búzio o feitiço mais bonito e mais pleno de magia que se podia um dia vir a revelar no Mar. A Sereia* mal percebia, as palavras eram estranhas, os sons facilmente se confundiam com os sons do fundo do Mar e da beira da praia.

"...que este momento de unidade do universo e de todos os mares... só se repita uma vez mais e pela vontade plena do Universo todo em uníssono... como hoje... que a eternidade se possa ver nos olhos de uma Sereia*... que o fio que o tempo tece e leva os dias para a frente... tenha um momento... e que esse momento faça brilhar mais alto e mais forte um coração que bata no peito de uma Sereia*..."

"...e depois de todos ouvirmos o coração dessa Sereia* bater... que o Universo se cale e o som do vácuo seja silêncio e respiração... quem estiver a dormir vai acordar sem sobressalto, quem estiver acordado vai adormecer e sonhar com isto..."

"...tudo se vai cumprir nesse dia... tudo vai ser e deixar de ser o que era... todos vamos ter uma cara nova... e dessas feições novas que nesse dia vão surgir... uma vai descobrir esta Sereia*... a face vai ser a que deve ser e não outra qualquer... um olho será verde de água, de profundidade, de verdade e o outro castanho de mel e mais escuro, de serenidade, de confiança, de felicidade..."

"...as escamas vão ter cada uma um cintilar singular... pela cintura ela vai trazer algas marinhas de uma suavidade ímpar e difícil de igualar em qualquer outro ser do mar... os braços finos, mas fortes, terão o poder de abraçar forte e firme quem deles merecer o enlaçar e entrelaçar... e no peito dela só chorará a alma de quem soltar lágrimas de magia e transformação, salgadas e puras..."

"...pode ser peixe, poder onda, pode ser sal, pode ser um cometa que dispare do céu profundo e desça ao Mar, pode ser uma flor que se solte do seu caule e no mar caia tonta, pode ser alma que do corpo se solta e dele se separa por amor ao Mar, pode até ser música inacabada com acordes dispersos, desafinados, pode ser movimento incontido que alguém não consiga segurar em si mesmo..."

"... e em silêncio de Sereia*, ela vai cantar uma única vez a sua única canção... e todos os seres atlantes vão chegar à beira mar... e os astros vão alinhar-se... num círculo gigante, que nunca acaba, o mundo todo vai ser mais do que a união das partes..."


Posto isto, Búzio e Sereia* aguardam o momento em que a lenda se cumpra e traga realidade a este Mar.
Milhares de vezes se há-de ver a sombra da Sereia nas rochas de uma praia, milhares de búzios hão-de ser encontrados na areia, trazidos pelas ondas tontas que o querem encontrar, ao longe pescadores e estrelas hão-de ver barbatanas a sair e a regressar ao Mar na ondulação mais forte, alguns vão até dizer que sabem qual é o segredo, outros vão jurar que já viram o búzio e a Sereia* numa noite que a Lua os denunciou, vão até tentar contar palavra-por-palavra esta lenda bem contada. Nada será verdade. Não acreditem em tais sonhos. Continuem a procurar.

***

Depois desta lenda escrita, a música dentro de mim quis que mudasse para esta...

4 comentários:

Sereia* disse...

A minha Terra do Sempre é a minha Terra do Nunca. Foi lá que me escondi quando Neptuno lançou o feitiço para dentro do búzio*

FavaRica disse...

:-)

Anónimo disse...

http://www.petitiononline.com/cgi-bin/create_petition.cgi?kakau



Pela Kakauzinha!

Ana disse...

A D O R E I!!!

mt bem escrito, imaginativo, profundo...e sabes bem q eu tenho tb o fascínio por búzios e segredos quase-revelados na profundidade do (a)mar.

voltarei para reler, pk me embala :)

parabéns por esta partilha, amiga azul!

bjs