22.4.09

A um qualquer amor

Apaga a luz. Tira os olhos desse candeeiro que leva a esperança até ti. Esquece qualquer ideia que possa passar pela tua cabeça de que possa existir um ser sequer parecido comigo. Há miseráveis em todo o lado, as esquinas estão cheias, que merecem mais a tua memória do que eu. Sopra essa memória que tens de um ser semelhante a mim com a fúria de um ciclone. Olha à tua volta sem me procurares. Procura antes uma alma igual à tua, a única que te merece. E sabe, nesse momento, que eu não existo, nem nunca posso ter existido. Não julgues que ficas vazio, porque a minha inexistência não te deixará saudade. Antes serás tudo em potência, serás a potencialidade de seres. Vais poder ter, ser, ver, tudo aquilo que antes não tinhas, não eras, nem vias. Porque eu escondia no bolso. Foi assim até o encher desse vazio que sou e que desde sempre lembro ser. Esquece esta vaga existência, não me dês tanta importância. Muda de lugar, foge daqui. Ou fica e ocupa tudo isto que não sou e não tenho, nunca fui, nem nunca terei. Não esperes por mim no tempo, porque eu não vou chegar a tempo. Eu nem vou chegar a partir. Não tenho hora marcada comigo nem contigo. Não te conheço e se és o amor que sempre esperei, foge depressa. Nesta altura eu já não tenho nome, nem rosto. Se me procurares (não o faças), não me encontrarás jamais, porque não nasci para ser amada. Se és amor, deixa este caminho e escolhe um outro onde que te possas encontrar. Se és amor, deixa as minhas lágrimas secarem por aqui, porque sou deserto sem brisa. Não esperes nada do que está seco, podre, do que sabes que não podes ver, nem sentir. Não esperes, não julgues, não almejes, não te vistas de ilusão. Sequei.

Sou da mesma Terra que Tu... II

- A nossa terra plana -
(índios da pampa argentina)


Esta é a nossa terra larga
onda nada pára, onde tudo passa,
e o vento não dorme e o horizonte anda.

Esta é a nossa terra que dança.
Vivíamos em tendas. Se o tempo mudava,
mudávamos as tendas. A vida é que manda.

Esta é que é a nossa terra plana.
Não é terra estreita, é uma terra larga.
Quanto queiram dela, dá-se em abundância.



in Poemas Ameríndios,
Tradução de Herberto Helder

20.4.09

Mankind Is No Island

Shiiiuuu!!!
Assistam em silêncio a esta curta metragem, por favor*








Agora que já assistiram, é fácil perceber porque é que esta curta metragem ganhou o TROPFEST, o maior festival de curtas metragens do mundo.

Começou há 17 anos em Sydney e no ano passado teve a sua primeira edição em Nova Iorque. O vencedor de 2008 foi este filme que foi totalmente filmado com um telemóvel e com um orçamento reduzidíssimo, no entanto realmente muito bom.

Recebi-a por e-mail e não resisti a partilhar.
Obrigada Fava Rica, este momento foi muito importante para mim.
Podes crer que foi!

P.s: esta música, este piano... não me sai da cabeça. Fabuloso!

17.4.09

Verde



Na verdade, eu sempre soube, o meu coração é verde




Aliás, todos os meus corações são verdes




Todos

Há anjos assim...




O ANJO MARINHO

O pensamento às vezes torna-se
material e tórrido. E às vezes
nas imagens da ausência nada
é frio. Ou outras associações
nascem. Estou sem Ti percorrida
por esse fogo. As faces cálidas
que ainda ecoam. As faúlhas
azuis e a baba do verdadeiro
fogo. Expectante e em cinza. Não
me reconheces já. Eu transfiro
o meu poder para a cinza. É
encantatória. Suave e com um
cinzento de rolas. Certos dias
a poeira brilha. Tu ainda
podes aturdir-me. Soprar
com lentidão para dentro do mar.
Até que eu me deixe afastar.


Fiama Hasse Pais Brandão
Obra Breve

***

Neptuno chamou a si todos os anjos do Mar e disse-lhes: "Há uma única coisa a fazer hoje e sempre." A voz grave e sábia, ao mesmo tempo doce de Mar salgado, os olhos brilhavam e os cavalos marinhos esperavam pela palavra certa, no momento certo em que desatassem a correr pelas ondas fora, levados pelas correntes mais quentes. Correntes sanguíneas de sangue azul, de um sangue real. Não era real de realeza, era real de realidade, porque era real. O Sangue do Mar corria quente nessa tarde. Porque o Rei Sol também tinha sido convidado e trouxe de presente, para todos os seres marinhos, os seus braços abertos infinitos de carinho e de Amor pelo Grande Azul.
"Que os anjos de todos os mares, voem bem fundo."A voar, submersos todos cumpriram desde o primeiro dia do Universo. Hoje, sempre que os sentimos a passar e a rebentar na espuma, achamos graça. Eles são graciosos no seu jeito de ser. São acolhedores na sua presença infinita e celestial. São celestes no Mar. Descem em cada gota de chuva, ainda sem asas preparadas para submergir. Não sentem o vento do mesmo modo, os seus olhos não se assustam com o tamanho das vagas que se formam em alto Mar, nem com os barcos, nem com os barqueiros que lhes aparecem pela frente. Os pescadores sabem sempre onde encontrá-los. Sabem como chamar por eles em tempestades da vida. E, quando ganham as asas de Mar, aprendem a voar no Mar, como peixes, como algas, como o próprio Mar sabe ser-se. São Mar com ele, são líquidos e têm aquela qualidade de se poderem deslocar com o sabor a sal que vai e vem, que embala, que rebenta e sempre regressa.

Há anjos assim líquidefeitos, flutuam e ondulam no Mar da vida. Nem o fogo que os ilumina, nem o vento que lhes sopra nas asas e lhes solta os cabelos, nem a areia lisa, quente, fina, nenhuma destas companhias se faz rogada, se fica por si, se queda numa esquina de uma rocha à espera de um novo dia, sem a bênção maior e mais linda de se ver em frente ao Mar. Os anjos marinhos soltam palavras de uma língua desconhecida para todo o sempre dos lábios branco-cal, da sua boca sai uma brisa azulada, que muda de tonalidade consoante as palavras e os sons vão mudando.
A brisa solta-se do azul-claro-água ao azul-escuro-noite. Mas há azuis de todas as cores nessa bênção. As Sereias* vergam-se aos seus pés, saúdam-nos de uma forma inigualável e inimaginável. E eu que sou Sereia* como qualquer outra, só canto nessa altura. Só canto, para os anjos marinhos. No meu feitiço, a fada do Mar disse-me que seria assim para todo o sempre. Só cantaria para os anjos do Mar ouvirem. E mesmo que eu tente cantar para outros seres marinhos, da minha boca não sai um único som que se ouça aquém ou além da praia da minha vida*

16.4.09




RAMO

Talvez eu não consiga quanto amo
ou amei teu ser dizer, talvez
como num mar que tu não vês
o meu corpo submerso seja o ramo
final que estendo já não sei a quem.






Poema de Gastão Cruz
A Moeda do Tempo

Fotos: Da Sereia*

13.4.09

Se esta rua fosse minha...

Na Rua dos Andorinhos, as Andorinhas passeiam-se. Fazem aqueles voos fabulosos em que quase tocam no chão e quase se sente a força de arrasto do ar nas nossas cabeças.
Voam alegres e cruzam-se umas com as outras. Ponho-me a imaginar o que vão dizendo quando passam umas pelas outras...
- "a última a chegar à papoila tem de voar a pique em direcção à primeira cabeça humana que aparecer";
- "iiiuuuupppppiiiiii";
- "Vamos jogar à apanhada?"

É que as Andorinhas têm uma forma de voar muito particular. São extremamente rápidas, fazem muitas razias, mudam de direcção com uma rapidez fantástica. Tão depressa estão lá em cima, como descem vertiginosamente e velozmente até cá a baixo.

Na Rua dos Andorinhos, há muitas Andorinhas e quando se juntam todas na brincadeira é uma alegria ficar a vê-las. Às vezes tento acompanhar o voo de uma ao acaso. É sempre difícil! É sempre engraçado tentar. Elas são muito rápidas.
Outras vezes ponho-me a imaginar... se o voar das Andorinhas deixasse um fio de lã no ar, elas desenhariam coisas lindas no céu azul.

Abro a porta da minha imaginação e escolho a cor do fio de lã para cada uma delas.
Fios de lã cor-de-rosa, amarelo Sol, lilás de Amor-Perfeito...
Imagino que uma tem um fio de lã verde floresta e que me escreve palavras sábias, desenha no ar palavras soltas.
Outra tem um fio laranja e anda só a tentar apanhar a Andorinha maior, a que tem o fio de lã azul-escuro da noite estrelada.
Há ainda uma Andorinha com fio de lã castanho tronco que o que mais gosta é de fazer 'ésses' ou 'oitos' no ar. E a Andorinha com o fio de lã vermelho faz por passar dentro de cada um dos 'ésses' e de cada um dos 'oitos' que a do fio castanho faz.

A Primavera chegou faz tempo e as pequenas Andorinhas sabem que este é o momento de colorir. Pintam o meu quadro da manhã e desenham nele altos voos repicados, grandes velocidades riscadas de cores fortes, voltas e voltas que misturam as cores da manhã na minha frente.
Nunca consigo dar o quadro por acabado. Espero sempre pelo próximo voo rasante, espero sempre pelas caudas penduradas em par para me passarem na frente e virem na minha direcção e a fugir ao mesmo tempo. Fecho os olhos e imagino o emaranhado de lã que faz o ar da Rua dos Andorinhos tão colorido esta manhã. Voltarei amanhã cedo a esta Rua para ver se descubro mais cores, mais fios de lã coloridos e inquietos*

12.4.09

Há dias... II

Não ligo patavina à Páscoa, ao seu simbolismo e ao significado que a maioria das pessoas lhe atribui. Aliás, verifiquei este ano uma tendência até no sentido oposto e mais negativo. Dei comigo quase a não gostar da páscoa. Disse para mim mesma: 'Puff!!! Acabou!!! Finalmente acabou a páscoa!'. De todas as coisas destes dias retiro uma meia dúzia e gozo de coração aberto esse momentos. Mas percebo que não dependem da páscoa, nem aconteceram por ela. Isolados fazem-me até sorrir e agradecer ao universo. Se os junto no sentido de 'páscoa' perdem cor, perdem alegria, só não chegam a perder o sentido porque significaram muito para mim. Estive com os meus xubinhos e isso foi maravilhoso :) Estive com os amigos e isso também foi maravilhoso :) temperei uma perna de borrego de uma forma que me deixou orgulhosa :) estive com pessoas da família de que gosto muito, mas que vejo regularmente (nada de novo). Não ligo às amêndoas, nem aos ovos, nem aos doces. NADA!

Dizem que a páscoa é tempo de renovação, de renascimento e de muitas outras palavras que começam com 're'... eu por mim fazia um... rewind e voltava uns dias atrás. Se pudesse mudava umas quantas cenas nas quais não gostei de participar como uma das actrizes principais. Se pudesse mudava o meu mau feitio e não renovava nada, nadinha. Apagava estes dias e escrevia outros. Talvez conseguisse perdoar-me a mim mesma por coisas que fiz e que disse, talvez conseguisse ver-me de outro modo e percebesse que devia mesmo mudar muito. Neste momento precisava de uma espécie de abanão que me fizesse olhar para mim mesma e mudar TUDO! De uma ponta a outra, do meu Norte ao meu Sul, por dentro e por fora de mim. Admitir que estou errada nem sempre é a parte mais difícil para mim. O que me custa depois de errar, é chegar ao perdão de mim mesma, muito para além do perdão dos outros, muito para além do pedido de desculpas que me sai naturalmente do coração, muito para além da forma que eu possa encontrar para remediar os erros.

Puufff! Acabou! Acabou a páscoa!!!
Amanhã será um novo dia, sem motivo nenhum para celebrar nada de especial que não seja o facto de estar viva. E sem motivo nenhum aparente para não agradecer qual
quer coisa e tudo o resto que vier no futuro*

Ando chateada com a vida... o que hei-de fazer?
Ando aborrecida com isto. Não me digam nada, eu sei que passa. Sei que se trata de uma fase como tantas outras por que passei. Sei que tenho este feitio descontente ocasionalmente quando as coisas não correm como esperava ou como queria...
Não me liguem, esqueçam lá isso.
Ando naquela fase em que a explosão está eminente, que já se nota a cor avermelhada e o calor quando se aproximam deste vulcão que me tem consumido ultimamente. Eu aguardo pela explosão e pelos estragos que fará e sinto pena antecipada e sentida com o coração de quem estiver por perto na altura desse momento que vou querer eliminar depois de acontecer.
Ando mesmo chateada e uma Sereia* chateada é de fugir sem olhar para trás.

9.4.09




~~ Dá-me ~~

Dá-me algo mais que o silêncio ou doçura
Algo que tenhas e não saibas
Não quero dádivas raras
Dá-me uma pedra.

Não fiques imóvel fitando-me
como se quisesses dizer
que há muitas coisas mudas
ocultas no que se diz

Dá-me algo lento e fino
como uma faca nas costas
E se nada tens para dar-me
dá-me tudo o que te falta!



in Doze Nós Numa Corda

8.4.09

de um certo espírito e de uma certa alma

II.
O espírito afirma, e ri-se da inteligência que discute... Ele vive indiferente ao seu vestuário de ideias. Estas, caem e renovam-se, como as folhas das árvores, mas o tronco é sempre o mesmo...
Na própria alma, há o quer que é de imutável, para além das nuances que a esfumam em vagas aparências novas.

III.
A alma fala, exibe-se, adora o mundo; o espírito, silencioso, do íntimo do nosso ser, contempla... Às vezes, com um simples gesto, apaga todas as vozes da alma, que muda então de conversa... E a Vida põe nova máscara.


Teixeira de Pascoaes
Senhora da Noite. Verbo Escuro
Não há Amor que me chegue,
nem Saudade que me deixe

7.4.09

I believe




É o que se chama: Dar o corpo ao manifesto
Há t-shirts bem esgalhadas!
Eu cá, visto esta camisola :)

5.4.09

Hoje




Hoje, se tivesse a coragem maior que a dos cobardes
Hoje, se tivesse a certeza de que não me arrependeria nunca
Hoje, se soubesse que nada ficaria por fazer, nem por fazer
Hoje, se não deixasse ninguém para trás
Hoje, se dizer adeus não doesse tanto, como sempre me dói

Hoje... teria tido o discernimento de subir ao alto da rocha mais linda desta minha praia e de lá mergulharia no abismo mais escuro, de olhos fechados para não me encandear com a luz do pôr-do-sol que me receberia em jubilo num horizonte bem diferente.

Hoje teria sido o dia.
Não foi.

Ouço o 'Creio' da Ana Moura repetidamente

2.4.09

Lenda encantada, inventada agora mesmo...

A ouvir esta música...



***


Num lugar secreto, nem escuro, nem claro, nem muito acima da montanha mais verde e mais alta, nem muito abaixo do coral mais colorido, está guardado o momento, está escondido o segredo, num 'para sempre' que nunca começa, nem nunca acaba...
está um búzio e está uma Sereia*

Ela espera pelo dia em que, ao nascer ou ao pôr do sol, à hora certa que o Universo decidir, o segredo guardado no búzio vai ser revelado.

O feitiço que Neptuno lhe lançou era bonito só de ouvir. Se fecharmos os olhos, podemos ver as cores desse feitiço dentro do nosso coração podemos ouvir o som desse feitiço, quando foi pronunciado para dentro de um búzio encantado. Os acordes do som do Mar embalaram as palavras secretas numa língua que não existe em mais lugar nenhum do mundo.
As palavras não foram inventadas, foram escolhidas uma por uma, assim ao acaso de quem sabe o que quer dizer. E soaram a feitiço imaterial quando entraram pela boca do búzio mais lindo e mais côncavo, mais sonoro e mais brilhante, que foi encontrado no fundo do mar.

Ora, todos os peixes de todos os Oceanos souberam que havia um búzio especial que tinha o segredo, mas não sabiam qual era. As espécies mais antigas de peixes nadaram pelos mares mais revoltos, passaram em cardumes de mais peixes que estrelas no céu, pelas correntes de nortada que vinham de outros nortes. Passaram a palavra às medusas e estas passaram às vieiras. As vieiras contaram tudo aos grandes mamíferos. E do Pólo Norte ao Pólo Sul, todas as focas e leões marinhos, todos os corais de recifes, todas as espécies de tartarugas, as rochas que fazem o perfil de todas as praias do Universo, as ondas que rebentam nas areias mais finas e nas pedras mais duras... E até o vento que sopra na crista das ondas, soou nos quatro cantos do mundo...

Mas nada, nem ninguém sabia onde estava nem como era esse búzio. Nada nem ninguém sabia onde estava nem como era essa Sereia*. Era segredo bem guardado.

A Sereia* tinha ouvido o feitiço que lhe foi lançado, mas ficou proibida de o revelar. Dizia-se que o Mar podia secar, dizia-se que o Sol nunca mais ia nascer, nem pôr, no horizonte. Então, ela esperou pelo dia em que tudo podia acontecer e o feitiço podia quebrar.

Por entre os sons de marulhar, Neptuno lançou o seu ceptro e fez dizer ao Búzio o feitiço mais bonito e mais pleno de magia que se podia um dia vir a revelar no Mar. A Sereia* mal percebia, as palavras eram estranhas, os sons facilmente se confundiam com os sons do fundo do Mar e da beira da praia.

"...que este momento de unidade do universo e de todos os mares... só se repita uma vez mais e pela vontade plena do Universo todo em uníssono... como hoje... que a eternidade se possa ver nos olhos de uma Sereia*... que o fio que o tempo tece e leva os dias para a frente... tenha um momento... e que esse momento faça brilhar mais alto e mais forte um coração que bata no peito de uma Sereia*..."

"...e depois de todos ouvirmos o coração dessa Sereia* bater... que o Universo se cale e o som do vácuo seja silêncio e respiração... quem estiver a dormir vai acordar sem sobressalto, quem estiver acordado vai adormecer e sonhar com isto..."

"...tudo se vai cumprir nesse dia... tudo vai ser e deixar de ser o que era... todos vamos ter uma cara nova... e dessas feições novas que nesse dia vão surgir... uma vai descobrir esta Sereia*... a face vai ser a que deve ser e não outra qualquer... um olho será verde de água, de profundidade, de verdade e o outro castanho de mel e mais escuro, de serenidade, de confiança, de felicidade..."

"...as escamas vão ter cada uma um cintilar singular... pela cintura ela vai trazer algas marinhas de uma suavidade ímpar e difícil de igualar em qualquer outro ser do mar... os braços finos, mas fortes, terão o poder de abraçar forte e firme quem deles merecer o enlaçar e entrelaçar... e no peito dela só chorará a alma de quem soltar lágrimas de magia e transformação, salgadas e puras..."

"...pode ser peixe, poder onda, pode ser sal, pode ser um cometa que dispare do céu profundo e desça ao Mar, pode ser uma flor que se solte do seu caule e no mar caia tonta, pode ser alma que do corpo se solta e dele se separa por amor ao Mar, pode até ser música inacabada com acordes dispersos, desafinados, pode ser movimento incontido que alguém não consiga segurar em si mesmo..."

"... e em silêncio de Sereia*, ela vai cantar uma única vez a sua única canção... e todos os seres atlantes vão chegar à beira mar... e os astros vão alinhar-se... num círculo gigante, que nunca acaba, o mundo todo vai ser mais do que a união das partes..."


Posto isto, Búzio e Sereia* aguardam o momento em que a lenda se cumpra e traga realidade a este Mar.
Milhares de vezes se há-de ver a sombra da Sereia nas rochas de uma praia, milhares de búzios hão-de ser encontrados na areia, trazidos pelas ondas tontas que o querem encontrar, ao longe pescadores e estrelas hão-de ver barbatanas a sair e a regressar ao Mar na ondulação mais forte, alguns vão até dizer que sabem qual é o segredo, outros vão jurar que já viram o búzio e a Sereia* numa noite que a Lua os denunciou, vão até tentar contar palavra-por-palavra esta lenda bem contada. Nada será verdade. Não acreditem em tais sonhos. Continuem a procurar.

***

Depois desta lenda escrita, a música dentro de mim quis que mudasse para esta...