15.1.10

"Pábia"

Não escolhemos a família que temos.
Foste a avó que eu nunca tive e sabias como ninguém como eu gostava do pão com marmelada. Não era manteiga, nem fiambre, nem queijo. Era marmelada. Não era muita, nem pouca. Só tu sabias a quantidade certa para me fazer lanchar sem fazer birras.
Foi no teu pátio dei os primeiros passos e à volta do pilar que sustentava a pequena varanda rodopiei milhares de vezes. Dancei e cantei. Com um nó que davas na ponta de uma corda fazia um microfone com fio e tudo. Teimava que a tua comida era melhor que a da minha mãe e fazia a pobre coitada ir deixar a comida em tua casa antes de me anunciar quer era dia de ir comer a casa da vizinha. Passei tardes e manhãs, dias e dias enfiada em tua casa só porque sim. Só porque gostava de lá estar ao pé de ti. Adorava ver o teu cabelo comprido a ser penteado e ver-te fazer o carrapito. Adorava sentar-me no muro à conversa a ver passar os carros. Não chegaste a comer as bolachinhas que te deixei anteontem. Hoje despedi-me de ti com todo o carinho que uma neta pode ter por uma avó. Se pudesse ter escolhido, tinhas sido tu a minha. Com todo o atrevimento que sempre tive, acho que posso dizer que também eu fui a neta que tu nunca tiveste*

4 comentários:

Rui Miguel Félix disse...

Lindo!
:)

Beijos e rodopios!

Angel disse...

Emocionante homenagem. Até sentí um aperto no peito, como se estivesse tb, perdendo alguém q admiro muito.
Fica com Deus.

mfc disse...

Fiquei muito comovido!
Foi uma homenagem muito bonita!
Ela está seguramente a sorrir.

Anónimo disse...

Sereia

Apesar da tristeza que existe nestas palavras, pela perda de nunca ter tido um amor que sempre esteve no teu coração, só Tu consegues escrever assim maravilhosamente...

Um Beijo Gigante de quem Nunuca te esqueçe...

Beijão tb á tua Mãe.

Sónia Sousa